quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A revitalização mimética da Arte no século XXI

Húmus de Herberto Helder foi a acendalha que iniciou a minha reflexão sobre este tema. Não porque o texto aborde o termo platónico ou porque o sujeito poético efectue uma visita ao passado. Na realidade, o poema é apenas o “pretexto deste miserável texto”.
A estética da imitação foi (e ainda é) intensamente debatida pelos teóricos das diversas áreas do saber. A teoria platónica recuperada pelos Renascentistas contemplava a Poesia como uma representação do real.

Frustrado pela sua limitação ao mundo inteligível, angustiado pela enfadonha réplica que lhe era permitido assimilar, o Homem descobre em si o Poeta. E é este quem tenta relativizar a divindade, atribuindo-lhe uma imagem simplificada, numa forma perceptível e tangível ao mortal.

Mas a incessante busca do saber levou os homens a questionar se seria mais válido tentar imitar a Beleza ideal ou criar uma Beleza nova, original. Imbuídos dos sentimentos revolucionários do início do século XX, dissociados de todos os escritos, surge uma nova Poesia, uma nova Literatura. “Em Arte, é vivo tudo o que é original.” Esta frase marca o pensamento modernista português. Uma Arte pessoal, intimista, que busca o “ego” agrilhoado no fundo dum poço pelo maquiavélico “eu” social.

Como todos os movimentos que surgem identificados com a ruptura do instituído, o movimento que seguiu o Modernismo apregoava exactamente o oposto. O Homem é um animal social e a Arte deve ser um instrumento de denúncia da insatisfação do homem perante a sociedade. Um instrumento político. Independentemente dos destinos à esquerda ou direita que cada nação tomou, apareceram os autores do sistema e, por oposição óbvia e em maior número, os detractores, os rebeldes, os autores proibidos, à velha moda inquisitorial.

Com a recuperação da Liberdade, todos os excessos foram permitidos. Em nome Dela, claro. Os rebeldes tornaram-se os grandes artistas. Qualquer pedaço de papel, trecho de música, com vivas à Liberdade era considerada obra de arte e o seu autor pertencente a uma nova geração. A Arte atingiu um novo patamar, o da massificação, até aos nossos dias.

Mas será que ainda é original? Ou estamos perante uma renovada mimesis? Perante uma imitação de modelos considerados de sucesso?

Inúmeros exemplos poderiam constar aqui de “grandes” obras literárias que não são mais do que arranjos subtis de outras. Poetas aclamados que mais não fazem do que imitar o modelo de sucesso encontrado anteriormente. Um vazio de originalidade mascarado por pseudo-criatividade. A sociedade glorifica os poetas profissionais.

Assim vive a Poesia. Assim vive a Literatura. Assim vive a Arte.

Paradoxalmente, o século XXI trouxe a imitação como companhia. Fora da Poesia, mas incorporada na sociedade. Uma imitação revigorada, simplista. Não existe busca por um mundo sensível, nem tentativa de aproveitar o inteligível, o reflexo. Apenas a tentativa de recuperar fracções dos “modus vivendi” anteriores. Uma verosimilhança. A Música iniciou esta tendência. Confluíram numa mesma pista os sons dos “clássicos” com os ritmos da actualidade. Surgiram as “mix” e os “bootlegs”. A Moda seguiu-a, utilizando o mesmo método. Peças de vestuário utilizado quarenta anos antes, mesclados com novas criações. Até a caixa mágica do século XX aderiu. Fruto da enorme variedade de opções à distância de um botão do comando, o homem pode rever as séries da sua infância e outras até anteriores e perder algum do seu tempo afogado em nostalgia pelos tempos idos.

Os movimentos revivalistas deliciam o ser. Permitem-lhe manter uma postura “jovem”. As adaptações sucessivas a marcas da sua juventude protegem-no dos sentimentos de incompreensão que invadiam os seus predecessores. É claro que continua a existir o handicap das novas tecnologias, mas até para esses existe sempre a opção de afirmar que são tradicionalistas.

Este texto não visa minorar a tradição nem apelar a uma nova ideologia. Reflecte o trajecto da Humanidade. Não tenta destruir heranças, nem apregoar originalidades (se ainda existirem). Conclui somente acerca do estado actual da Arte na sociedade.

O Homem nunca consegue apenas evoluir. Ele transporta sempre consigo o seu passado. No século XXI parece não existir espaço para criar o Novo. Apenas para reinventar o Existente.

A Arte foi descoberta pelas massas, abandonou definitivamente o firmamento onde os Artistas A tinham colocado, apenas para contemplação de quem A conseguia identificar, admirar e valorizar.

3 comentários:

  1. Nada se perde, tudo se transforma...
    Assim é na vida, assim é na arte, assim somos nós.

    Bravo, bravo, bravo!

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  2. Bom texto Luís, um bem haja ao teu novo espaço. Podias ter colocado o poema do HH para se acopanhar o texto.

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  3. Obrigado pelos incentivos.
    O poema foi escrito a partir da obra do Brandão e navega pelas mesmas águas putrefactas. Por acaso não me lembrei de o colocar, mas é um pouco extenso e não sei sequer se existe online.

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