quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Tinariwen ou A vertigem da serpente

Numa improvável noite quente de Outubro, o sentimento é de submissão. Completamente hipntotizado por um som tão desconhecido e tão familiar que te transporta para um universo místico.
É como defino o concerto de Tinariwen no Teatro Municipal de Vila do Conde.
Sem expectativas, sem preconceitos, à espera da surpresa e da desilusão. Foi assim que entrei na Sala 1. Quando as luzes lentamente deram lugar aos resistentes Touareg, toda a realidade da cidade "espraiada entre pinhais, rio e mar" se esvaiu. Todos fomos transportados para o mundo dos Tinariwen, incondicionalmente. E por lá ficamos durante duas horas, deliciados com os repetitivos "ça va?", "ok?", "obrigado" e "merci".

A guitarra serpenteou pela efusiva linha do baixo, comandados pela poderosa percursão. A voz, essa, transformava as palavras imperceptíveis em dialecto universal, com a mestria de um encantador de serpentes.

Desde o seu início que se salientou a utilização das guitarras eléctricas, mas o segredo reside no baixo. E não porque utilizaram um baixo oferecido pelos Red Hot Chili Peppers na semana anterior ao concerto. É óbvio que as guitarras (eléctricas ou acústicas) dão uma sonoridade inconfundível, que parece beber dos blues e até do folk algumas gotas de genialidade. Mas não existe confusão. É música do deserto. Refiro o baixo, porque as linhas são tão fortes e ritmadas que são o tronco por onde a serpente sobe lentamente.

Sem elas, muita da profundidade do som desapareceria. Continuaria a ser bom, mas seria uma obra incompleta, uma "Sagrada Família".

O som dos Tinariwen é o ideal para acompanhar uma viagem ou para ouvir em casa, depois de um dia mau.


Faltou apenas esta (acho eu)..

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Quatro lugares comuns sobre várias artes poéticas, de Alexandre O’Neill: O poder do dilema

http://alicerces.blogspot.com/2004/11/alicerando-poesia-27-alexandre-oneill_21.html

Deparei com parte deste poema de Alexandre O’Neill enquanto viajava por um manual de 9º ano. Estranhei. Como poderiam ter seleccionado um poema tão complexo de analisar para jovens tão alheados da palavra? Continuei a viagem. Nobre, Torga, Florbela, Gomes Ferreira, Ruy Belo, Pessoa. Uma mini-antologia da poesia portuguesa do século passado nas suas mãos. Todos estes mestres da palavra depois da épica tarefa de apresentar e tratar o mais conhecido texto do Príncipe dos Poetas da Península Ibérica.

Isto após incursões queirosianas e vicentinas, cuja sátira e humor (leia-se vernáculo) por momentos, alegraram aqueles que nos pagarão a merecida reforma.

Inútil será questionar se a Vida entrou pelas suas vidas quando leram O’Neill, se a melancolia espreitou após a compreensão da Balada do Caixão ou a intriga do aparente non-sense no Chove… de Gomes Ferreira. O maior sentimento despertado foi a indiferença. Seguido de perto pelo tédio. Longas tentativas para deixar a poesia seguir o seu rumo “Está quase no fim.” “Só faltam algumas aulas, stor, vamos descansar ou fazer um jogo”. Desapaixonados pela poesia.

Ainda não descobriram o Amor, certamente. Nem a Dor.

 De volta a O’Neill.                                                                     

Perante o drama da folha em branco (o pesadelo de qualquer escritor), o sujeito poético tem duas hipóteses: Esperar pela inspiração, divina ou não, ou investir com o suor? Esta interrogação comporta elementos que ultrapassam a mera dúvida e somos nós próprios questionados.

O que será mais importante? Qual influenciará mais o sujeito poético? Conseguirá o poeta escrever sem inspiração? Existirá poesia resultante apenas do trabalho do escritor? Será ainda poesia ou um trabalho académico? Será poesia a ausência de palavras?

Se o sujeito poético não quer escrever nada, porque não assinar a folha em branco, em concordância com o vazio, o silêncio, o nada? Esta é outra interrogação do sujeito poético, respondida com mais uma questão. “Mas o branco seria o silêncio,/ Uma vez assinado?” A assinatura transmite pertença, subscrição do que a antecede. Um grito de revolta, silencioso talvez, de quem a assinou. Mas transmitiria também uma mensagem que seria associada para sempre ao seu signatário. O silêncio que ele almejava desapareceria. Inúmeras conjecturas surgiriam. Seria uma metáfora para o amordaçamento político? Uma inovação literária para quebrar a rigidez da forma para sempre?  Ou apenas e só o refúgio do Eu poético?

Daqui evoluiriam as análises para uma ligação ao movimento literário. Será neo-realista? Uma das marcas deste poeta é a desconstrução da forma da poesia, “o aproveitamento da mancha gráfica (…) como forma de subversão e ruptura da ordem” (Rocha, Clara, prefácio a Alexandre O’Neill – Poesias Completas 1951-1986), uma das criações mais queridas dos Surrealistas. E o autor de Tempo de Fantasmas é, a par de Cesariny, o expoente literário do Surrealismo em Portugal.

Esta página em branco, com a assinatura, poderia simbolizar a fina crítica surrealista da sociedade, despojada do forte activismo político associado ao neo-realismo (versão portuguesa do Realismo social de Gorki), que, embora visse a arte como forma de “exprimir a realidade viva e humana de uma época” (Cunhal, Álvaro, O Diabo, 1939), nunca deixaria de beber da fonte marxista, crucificando os presencistas por uma visão umbilical do mundo (principalmente José Régio) alheia aos problemas do proletariado e da sociedade em geral.

Decidido a escrever, o sujeito poético questiona esta luta do Eu contra o Mundo. O “modelo exterior”, que, num desejo incessante de O agradar, deixa o poeta “definitivamente fora,/ mas fora de ti próprio” e o “modelo interior”, que o levará a uma escrita árdua, um trabalho de “arrumador,/ lanterninha na mão.” O suor é a marca desta Poesia. O resultado da luta.

O’Neill descreve a imagem do poeta debruçado sobre a folha em branco como um slogan da poesia espectáculo. O surrealismo apelava ao “automatismo psíquico pelo qual se pretende exprimir, verbalmente ou por escrito, o funcionamento real do pensamento. Ditado do pensamento, na ausência de qualquer vigilância exercida pela razão, para além de qualquer preocupação estética ou moral” (Breton, Manifestos do Surrealismo, Lisboa, Ed. Salamandra, 1993, p. 34). Esta definição surrealista remete o “suor” para um campo secundário, ou até inexistente. A inspiração, o improviso, o discorrer do pensamento é a base da poesia, da arte surrealista. Sem correcção, sem melhoramento (se alterasse, perderia toda a beleza).  

No Terceiro lugar-comum, o sujeito poético não deixa de aconselhar “Se tens o lampo da inspiração,/ despede-o para o papel como instantaneidade/ de incertos resultados./ Depois se verá se deixou resíduos/ ou se o lampo não deu mais que um trovão.” Tudo deve ser escrito.

Mas o que fazer se for apenas um trovão? Esperar pelo seguinte? Ou aproveitá-lo e trabalhá-lo, deixá-lo absorver os mundos exterior e interior e suar?  

A resposta é muito simples. E é dada no Quarto lugar-comum. “Não te deixes cindir por um falso dilema”. Não obedecer a cânones. Não ser regido pela poesia existente ou em voga, mas sim pela própria Poesia. “Bandeja e suor são problemas teus,/ maneiras de ser, de agir, processos de trabalho.” A poesia é individual. Única. Intemporal. Alheia a pressões estéticas. Não existem regras que mostrem onde, como e quando deve começar um poema. Na folha de papel? No “Espaço redondo em que te moves?/ Ou quando, alheio a tudo, te pões de cócoras,/ a coçar, perplexo, a cabeça?

Assim, O’Neill representa habilmente o processo criativo do poeta. A sua experiência publicitária está patente nesta súmula de momentos que elevam a Poesia à grandeza universal e intemporal. Independente de movimentos, modas ou épocas. A descrição da relação pessoal do poeta com a folha de papel.     

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Saudade em verso ou início de algum poema

A distância pesa.
O mar é outro.
A bruma carrega os rostos,
situações,
emoções.

Passado? Ou augúrios de um Futuro trémulo?

A solidão acompanha o Ser.

Sonhos,
Desejos,
sucumbem perante a Realidade.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Por entre a chuva de uma Abelha



Uma Abelha na Chuva, adaptação cinematográfica do romance de Carlos de Oliveira por Fernando Lopes, foi a mola impulsionadora de uma reflexão pessoal sobre a capacidade de transportar para o ecrã sinestesias, impressões e até recriações de uma obra literária.

Este filme, aclamado pelo seu carácter de ruptura com o modelo instituído (dos filmes portugueses das décadas de 50 e 60, com uma realização francamente básica), mais do que o apelo português à valorização da Nouvelle Vague, vocifera directamente ao espectador. É necessária uma atenção especial, redobrada. Aos planos abertos, às repetições (a conversa entre o casal, repetida apenas com o som angustiante de um metrónomo em ritmo quaternário) e aos loops (principalmente o do protagonista, à porta do quarto, que repete o seu percurso, qual animal preso e desorientado). A tensão hípico-erótica que percorre o filme é asfixiante, desde o resfolegar dos cavalos na cena das rédeas, na qual a protagonista, assombrada pelo desejo, bate violentamente nos animais, num ritmo alucinante.

O realismo é magistralmente exasperante, deixando o espectador à espera de uma carruagem que ouve e não vê.

A magia do realizador é ainda maior quando sabemos das dificuldades financeiras por detrás do filme.

Tudo o que se vê neste Uma Abelha na Chuva mais não é do que o conjunto de sensações que o livro despertou em Fernando Lopes. A sua interpretação. Como o mais comum dos leitores.

Cada texto lido desperta em nós as mesmas reacções.

Também nós paramos, por vezes, para reler uma passagem ou um capítulo. Também nós repetimos mentalmente a nossa imagem de um momento marcante no livro. Nem sempre as personagens dirão o mesmo na nossa recriação da obra. Os movimentos, tão diferenciados quanto o são os leitores, transformam o texto.

E assim criamos um novo texto, dentro do texto.

Paro.

Lembro-me neste momento de uma passagem de uma crónica de Lobo Antunes que corrobora esta ideia. Mais: a consciência do próprio autor desta independência do texto, da obra, da Arte. A vantagem da Internet é que posso procurar e partilhar essa mesma passagem:

"Vejo os livros libertos de mim, com uma lógica interna que é apenas sua, possuindo uma temperatura e uma densidade que escapam aos meus mecanismos lógicos, aos meus desejos, à minha vontade. Afigura-se-me óbvio que não são meus e, para ser inteiramente honesto, deviam ser publicados sem nome de autor."

Esta consciencialização da importância do leitor, tão patente nos escritores europeus da segunda metade do século passado (basta relembrar o início de Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino), foi a base para as adaptações livres que o cinema fez de algumas obras e da qual Uma Abelha na Chuva é o expoente, no panorama nacional.


As influências francesas e italianas são bastante evidentes no filme, mas a sagacidade da interpretação do realizador tornam Uma Abelha um filme obrigatório para qualquer estudante de Cinema e de Literatura.


Texto publicado em http://p3.publico.pt/cultura/filmes/5108/por-entre-chuva-de-uma-abelha a 31/10/2012














quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Oito temporadas

Os meus vizinhos passam a vida em casa, a festejar. Ou então, malevolamente, anotaram as minhas rotinas e sabem sempre quando começar a festa. Mas não era preciso tanto. Qualquer pessoa sabe que depois da meia-noite (ou uma da manhã) nos dias úteis, os seres que abraçaram o mundo do trabalho recuperam forças para o combate do dia seguinte.

Eles não.

Não precisam.

Embora estudantes universitários (suponho), não são afectados pelo vírus examinis, tão comum como a gripe neste frio mês de Janeiro.
A verdade é que estes jovens induziram-me a uma analepse mental.
Quase no fim da vida dos escudos, frequentar o ensino superior foi a escolha lógica para quem queria transmitir e aprofundar conhecimentos da língua (leia-se literatura) portuguesa.
Mas a Universidade é, sem dúvida, o local certo para descobrir a vida (a verdadeira, a real).
Podemos estabelecer várias comparações:

1 - Com o mundo empresarial: Nós somos técnicos de vendas e os excelsos professores são os patrões. Temos um contrato por objectivos e precisamos alcançá-los para conseguir um salário razoável;

2- Com o mundo político: Quem pensar que as AE só servem para organizar festas, não sabe como funcionavam há algum tempo atrás. As Assembleias Gerais eram transformadas em debates políticos, onde o conhecimento semântico era essencial e, tal como os Governos, éramos sempre alvos de ataques orquestrados pela esquerda; O mundo académico (não sei se ainda existe...) também tem comparações com a política: Lutas pelo poder (?), interesses que sobrepõem amizade, jogos de bastidores. Mas aqui não existem vantagens, não existem estatutos especiais (apenas em algumas mentes...);

3- Com o mundo afectivo: As relações de amizade são, geralmente, como na vida real, movidas por interesse. As relações amorosas... demasiado complicadas, assim como na vida real.

Conclusão: A vida universitária é fútil e desinteressante.
Errado.

Sempre que questiono o motivo de oito temporadas, lembro-me das noites (nunca) passadas com alguns verdadeiros académicos, que se tornaram Amigos; dos elogios em pleno congresso que embargavam a voz; das incansáveis e pacientes colegas de curso que facultavam os apontamentos; dos laços criados a lutar por um objectivo em comum; do Amor... E, claro, dos copos inspiradores nos restaurantes e bares da Invicta.

Assim se prepara um jovem para o mundo real. Não deve demorar tanto tempo como eu. Mas é necessário assimilar bem os conhecimentos antes de partir para o mundo real.

Espero que os meus vizinhos não passem ao lado desta experiência, senão temo por eles.

E pelo país.

E por mim, que preciso de uma boa noite de sono.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Meninos da Mamã

Por demasiadas vezes ouvimos a expressão "É um menino da mamã!" e, instintivamente, lançamos um sorriso trocista. Está impregnado no nosso código genético que devemos troçar dos "meninos da mamã". Sem saber ao certo porquê. Sem questionar a origem.
O que é um "menino da mamã"?
Alguém que não sabe cozinhar? Que evita lavar a loiça sempre que possível? Que nem sempre se preocupa em fazer a cama, porque sabe que num futuro muito próximo ela será novamente utilizada? Que não sabe o local dos produtos de limpeza ou o compartimento correcto do amaciador e do detergente na máquina? Que desconhece o melhor método de estender a roupa? A lista seria enorme, se quiséssemos fazer uma pesquisa exaustiva.
Nada melhor do que sair de casa dos pais para deixar de ser "menino da mamã". Ninguém ousa nomear uma pessoa que vive sozinha ou com um(a) companheiro(a) de "menino da mamã". Seria contraditório.
Porquê então esta reflexão tão suis generis?
Porque descobri a minha total ignorância relativamente ao modo como devo estender a roupa. Existe todo um ritual associado a esta simples tarefa (As senhoras que o praticam desde a infância podem parar de sorrir agora. Obrigado.).
Começando pelo acto de tirar a roupa da máquina. A ordem nem sempre é aleatória. Tem de haver já uma visualização mental do espaço a ocupar e das peças a utilizar nesse espaço, tal como o jogador de xadrez que antecipa até quatro jogadas do adversário.
Depois, é necessário sacudir a roupa. Novamente a antecipar a dificuldade que trará ao passar a roupa a ferro. Quanto menos emaranhada secar, melhor viajará o ferro de engomar pela peça.
Sacudida sem contemplações, vem a fase de colocar a roupa no estendal. "Nada mais fácil!", pensei eu, no pico da minha ignorância. É preciso toda a atenção neste passo, pois não se podem pôr molas como nos apetece e muito menos onde nos apetece! Sacrilégio!! A roupa tem os seus locais específicos para as molas: debaixo da área do sovaco, onde as costuras se juntam. Aí está! Isto é fantástico para camisas e camisolas. E para boxers? Ao que consegui indagar, não existe uma regra. Mas na roupa interior não há grande problema, porque é interior.
Se desrespeitar esta regra, é porque não antecipou que precisará de passar a ferro a roupa e os vincos criados pelas molas deixá-lo-ão com vontade de se auto-flagelar. Ou não.

A arte milenar de estender a roupa obriga ao cumprimento de todas as etapas religiosamente. Ou não.

Pode sempre optar por uma camisa emaranhada (há quem as venda assim), da mesma forma que pode optar por raramente fazer a cama, comer fora, mandar a roupa para a lavandaria e utilizar pratos e talheres descartáveis. No mundo actual existem pessoas e serviços que nos simplificam a vida. Para quê complicar?
Para não nos chamarem "menino da mamã"?
Cresçam!





Nota: Este artigo foi escrito desrespeitando o novo Acordo Ortográfico.