http://alicerces.blogspot.com/2004/11/alicerando-poesia-27-alexandre-oneill_21.html
Deparei com parte deste poema de Alexandre O’Neill enquanto viajava por um manual de 9º ano. Estranhei. Como poderiam ter seleccionado um poema tão complexo de analisar para jovens tão alheados da palavra? Continuei a viagem. Nobre, Torga, Florbela, Gomes Ferreira, Ruy Belo, Pessoa. Uma mini-antologia da poesia portuguesa do século passado nas suas mãos. Todos estes mestres da palavra depois da épica tarefa de apresentar e tratar o mais conhecido texto do Príncipe dos Poetas da Península Ibérica.
Deparei com parte deste poema de Alexandre O’Neill enquanto viajava por um manual de 9º ano. Estranhei. Como poderiam ter seleccionado um poema tão complexo de analisar para jovens tão alheados da palavra? Continuei a viagem. Nobre, Torga, Florbela, Gomes Ferreira, Ruy Belo, Pessoa. Uma mini-antologia da poesia portuguesa do século passado nas suas mãos. Todos estes mestres da palavra depois da épica tarefa de apresentar e tratar o mais conhecido texto do Príncipe dos Poetas da Península Ibérica.
Isto após incursões queirosianas e vicentinas, cuja sátira e humor (leia-se vernáculo) por momentos, alegraram aqueles que nos pagarão a merecida reforma.
Inútil será questionar se a Vida entrou pelas suas vidas quando leram O’Neill, se a melancolia espreitou após a compreensão da Balada do Caixão ou a intriga do aparente non-sense no Chove… de Gomes Ferreira. O maior sentimento despertado foi a indiferença. Seguido de perto pelo tédio. Longas tentativas para deixar a poesia seguir o seu rumo “Está quase no fim.” “Só faltam algumas aulas, stor, vamos descansar ou fazer um jogo”. Desapaixonados pela poesia.
Ainda não descobriram o Amor, certamente. Nem a Dor.
De volta a O’Neill.
Perante o drama da folha em branco (o pesadelo de qualquer escritor), o sujeito poético tem duas hipóteses: Esperar pela inspiração, divina ou não, ou investir com o suor? Esta interrogação comporta elementos que ultrapassam a mera dúvida e somos nós próprios questionados.
O que será mais importante? Qual influenciará mais o sujeito poético? Conseguirá o poeta escrever sem inspiração? Existirá poesia resultante apenas do trabalho do escritor? Será ainda poesia ou um trabalho académico? Será poesia a ausência de palavras?
Se o sujeito poético não quer escrever nada, porque não assinar a folha em branco, em concordância com o vazio, o silêncio, o nada? Esta é outra interrogação do sujeito poético, respondida com mais uma questão. “Mas o branco seria o silêncio,/ Uma vez assinado?” A assinatura transmite pertença, subscrição do que a antecede. Um grito de revolta, silencioso talvez, de quem a assinou. Mas transmitiria também uma mensagem que seria associada para sempre ao seu signatário. O silêncio que ele almejava desapareceria. Inúmeras conjecturas surgiriam. Seria uma metáfora para o amordaçamento político? Uma inovação literária para quebrar a rigidez da forma para sempre? Ou apenas e só o refúgio do Eu poético?
Daqui evoluiriam as análises para uma ligação ao movimento literário. Será neo-realista? Uma das marcas deste poeta é a desconstrução da forma da poesia, “o aproveitamento da mancha gráfica (…) como forma de subversão e ruptura da ordem” (Rocha, Clara, prefácio a Alexandre O’Neill – Poesias Completas 1951-1986), uma das criações mais queridas dos Surrealistas. E o autor de Tempo de Fantasmas é, a par de Cesariny, o expoente literário do Surrealismo em Portugal.
Esta página em branco, com a assinatura, poderia simbolizar a fina crítica surrealista da sociedade, despojada do forte activismo político associado ao neo-realismo (versão portuguesa do Realismo social de Gorki), que, embora visse a arte como forma de “exprimir a realidade viva e humana de uma época” (Cunhal, Álvaro, O Diabo, 1939), nunca deixaria de beber da fonte marxista, crucificando os presencistas por uma visão umbilical do mundo (principalmente José Régio) alheia aos problemas do proletariado e da sociedade em geral.
Decidido a escrever, o sujeito poético questiona esta luta do Eu contra o Mundo. O “modelo exterior”, que, num desejo incessante de O agradar, deixa o poeta “definitivamente fora,/ mas fora de ti próprio” e o “modelo interior”, que o levará a uma escrita árdua, um trabalho de “arrumador,/ lanterninha na mão.” O suor é a marca desta Poesia. O resultado da luta.
O’Neill descreve a imagem do poeta debruçado sobre a folha em branco como um slogan da poesia espectáculo. O surrealismo apelava ao “automatismo psíquico pelo qual se pretende exprimir, verbalmente ou por escrito, o funcionamento real do pensamento. Ditado do pensamento, na ausência de qualquer vigilância exercida pela razão, para além de qualquer preocupação estética ou moral” (Breton, Manifestos do Surrealismo, Lisboa, Ed. Salamandra, 1993, p. 34). Esta definição surrealista remete o “suor” para um campo secundário, ou até inexistente. A inspiração, o improviso, o discorrer do pensamento é a base da poesia, da arte surrealista. Sem correcção, sem melhoramento (se alterasse, perderia toda a beleza).
No Terceiro lugar-comum, o sujeito poético não deixa de aconselhar “Se tens o lampo da inspiração,/ despede-o para o papel como instantaneidade/ de incertos resultados./ Depois se verá se deixou resíduos/ ou se o lampo não deu mais que um trovão.” Tudo deve ser escrito.
Mas o que fazer se for apenas um trovão? Esperar pelo seguinte? Ou aproveitá-lo e trabalhá-lo, deixá-lo absorver os mundos exterior e interior e suar?
A resposta é muito simples. E é dada no Quarto lugar-comum. “Não te deixes cindir por um falso dilema”. Não obedecer a cânones. Não ser regido pela poesia existente ou em voga, mas sim pela própria Poesia. “Bandeja e suor são problemas teus,/ maneiras de ser, de agir, processos de trabalho.” A poesia é individual. Única. Intemporal. Alheia a pressões estéticas. Não existem regras que mostrem onde, como e quando deve começar um poema. Na folha de papel? No “Espaço redondo em que te moves?/ Ou quando, alheio a tudo, te pões de cócoras,/ a coçar, perplexo, a cabeça?”
Assim, O’Neill representa habilmente o processo criativo do poeta. A sua experiência publicitária está patente nesta súmula de momentos que elevam a Poesia à grandeza universal e intemporal. Independente de movimentos, modas ou épocas. A descrição da relação pessoal do poeta com a folha de papel.
Sem comentários:
Enviar um comentário