domingo, 23 de dezembro de 2012

A falta de vergonha da televisão


É interessante parar para pensar no pseudo-fenómeno que começou a assolar os grupos televisivos americanos na última década: a adoção de séries britânicas.
                No campo do humor, recriaram a épica saga de Ricky Gervais, The Office. A mesma comédia documental, um “mockumentary” adaptado ao “american way of life”. Em Portugal, podemos ver este The Office US num canal do grupo Fox, mas, felizmente, a SIC Radical transmitiu o original britânico há algum tempo, permitindo assim saber que a personagem de Steve Carell não era mais do que o alter-ego americano de Gervais. Para os canais generalistas esta não deveria ser uma série que interessasse (preferem, talvez, o humor escatológico de Little Britain).
Mas o exemplo mais gritante da cópia americana e de como os portugueses consomem muito mais facilmente entretenimento “made in USA” é Shameless.
A série original tem como cenário Chatsworth Estate, em Manchester, e apresenta Frank Gallagher, um alcoólico viciado em tudo que ofereça um escape da realidade que vive de subsídios e pensões do estado (nem todas legais). Frank vive com os seus filhos intermitentemente, sendo o modelo do pior pai possível. Para eles, o pai é apenas fonte de preocupações e de problemas. Juntamos a esta família disfuncional uma mãe que fugiu com uma (sim, uma) camionista, vizinhos que se dedicam à prostituição e, claro, uma família de rufias liderados por uma “scouse” que vai assumindo protagonismo com o decorrer das temporadas. É para este universo caótico e profundamente real que somos sugados quando assistimos a Shameless. A ironia e a sátira social são tão densas que é impossível não atentar nos discursos socio-filosófico-alcoolizados de Frank Gallagher. Os párias de Manchester vivem assim o seu dia-a-dia. Sem saber como será o dia seguinte, utilizando ardis para ganhar dinheiro, simulando mortes para afastar credores ou mantendo os mortos “vivos” para receber subsídios.
Na versão americana, transportaram Chatsworth para os arredores de Chicago e mantiveram os nomes das personagens, bem como as suas características (exceção: o bebé negro). A “storyline” não muda muito relativamente à original, com as devidas adaptações linguísticas.
Há, na minha opinião, uma cópia demasiadamente assumida que leva qualquer pessoa que viu a série original a não atribuir grande valor a este Shameless US. Para os outros, é “muito boa”, “representa uma sociedade decadente americana”, “é um retrato dos anti-heróis modernos”. E não estão errados. Mas ver Shameless US é como ir ao cinema ver uma adaptação razoável de um bom livro.  

Novamente, é necessário agradecer à SIC Radical por ter trazido para Portugal a série original. O que motivará reflexão é imaginar como uma série que tem já dez temporadas em Inglaterra não chamou a atenção de nenhum canal generalista, mas uma versão/cópia americana com duas ou três temporadas foi rapidamente adquirida pela RTP 2.  

Texto publicado em http://p3.publico.pt/vicios/ecra/5907/falta-de-vergonha-da-televisao a 22/12/2012

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A muda abertura de um Camino breve



O concerto dos The Black Keys no Pavilhão Atlântico foi bom. Competente. Profissional. E breve. Demasiado breve para uma banda com mais de dez anos. A produção foi quase imaculada. O live feed não reproduziu simplesmente o que se passava em palco. Reflexos, cores e espelhos serviram para levar o público a estar atento ao que passava nas telas. Também o trabalho do VJ foi alvo de atenção. Montagens, baterias e imagens do El Camino na música mais aguardada da noite, todas bem conseguidas. Notaram-se sem se sobreporem aos heróis da noite.
Dan e Patrick foram enérgicos como expectável, embora Auerbach não merecesse a traição do microfone na abertura explosiva de Howlin’ for you. Nem o público.
O blues e o rock estiveram bem representados no poder da cadência e na gritaria prantosa da guitarra. Os sons mais comerciais de El Camino e Brothers animaram uma sala que provou estar lá para ouvir isso mesmo. El Camino e pouco mais. A roupagem em Sinister Kid foi quase ignorada, Thickfreakness levou alguns a mexer, fruto das ordens do riff e só I Got Mine, a última música apresentada, teve a devida apoteose (musical e visual) por parte da massa maioritariamente teen que encheu a plateia do Atlântico.
Ficam na memória, além das acima referidas, Little Black Submarines, Next Girl, Gold on the Ceiling, Everlasting Light (graças à bola de cristal e ao ambiente de bar que criou) e, claro, Lonely Boy. Uma das grandes ausências foi Have Love Will Travel, engolida (talvez) pela necessidade de respeitar a duração do concerto. Noventa minutos são escassos para uma banda que se estreava nos nossos palcos. Apesar da promessa de voltar, o público português merecia mais esta noite, não numa próxima.
Apesar das inúmeras tentativas, o duo americano não incorpora nem transmite uma imagem de entertainer. Não prima pela criação de empatia com o público. Objetos lusos lançados para o palco foram ignorados, a saída de palco não correspondeu ao discurso que a antecedeu. Mas a função dos The Black Keys foi inteiramente cumprida: trazer a eletricidade do Rock n’ Roll mesclado com a melancolia do Blues ao público português. 
Quanto aos The Macabees, tentaram esforçadamente passar uma sonoridade que está moribunda. E à qual nada acrescentaram.

Texto publicado em http://p3.publico.pt/cultura/mp3/5606/black-keys-competentes-e-profissionais a 28/11/2012


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Ruído Português



Quando te sentas e tentas interiorizar o mundo, tudo pode acontecer.

Ouves o mais profundo silêncio. Uma explosão. Queixumes. Risos.

Eu ouço ruído. Conversas indistintas e fúteis abafadas pelas máquinas. Tosse constante. Gritos mascarados de gargalhadas. Choro dissimulado em catarro. Um pobre doente, o mundo. O meu mundo.

As pessoas do meu mundo. Umas, cabisbaixas, ensimesmadas na busca de uma solução utópica. Outras, revolucionárias, ondas que tentam empurrar o rochedo para fora do mar. Os vendavais diários derrubam a esperança e as respostas surgem com a regularidade de um eclipse. Um eclipse. Total e duradouro.

Aguardar. Aguentar. Agoniar. Ansiar.
 



  

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A Solidão que enche o Ser


O Artista está sempre
sozinho.
É a Solidão que o caracteriza.
Angústia do silêncio ouvida em todos os tormentos.
Ao olhar uma parede,
é a Sua alva cor que vê.
Ao expelir o fumo nicotinal,
são as Suas palavras que lê.
Sem a Solidão, o Artista é apenas…
… humano.
A sofreguidão que faz tremer a caneta e a
dor latente são poéticas.
Nada é banal.
Nada é comum.
Só assim ele consegue ser.
Sentir não é mais do que o
suave
beijo
da Solidão.
E viver é apenas o Seu abraço.   

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O Coelho e o cortador de Relvas

           Era uma vez, num país longínquo e esquecido, um Coelho que vivia num belo palácio, rodeado de jardins muito belos. Todos os dias, o Coelho falava com um grupo de animais, cujas responsabilidades eram resolver os problemas que surgiam, não só na casa, mas também no país. É que este Coelho governava aquela terra longínqua. De todos os animais, ele conversava bastante com um Grilo e uma Coruja. 
          Um dia, o Coelho acordou e reparou que a Relva dos seus jardins estava cada vez maior, ameaçando até cobrir o seu palácio. Muito preocupado, chamou os seus conselheiros mais próximos. O Grilo, com o seu discurso articulado e calmo, agradeceu a questão e salientou que o melhor seria não tomar atitudes precipitadas, pois a sombra gerada pela Relva podia não ser assim tão má; já a Coruja começou a abanar as asas e a dizer que estava contente por o Coelho a ter chamado para ajudar a resolver tal questão. Na verdade, a Coruja pensava ter perdido todo o seu poder para o Grilo e estava deliciada por poder dizer o que pensava.
O Coelho ouviu ambos e, perante a ineficácia dos seus argumentos, decidiu tratar pessoalmente do assunto.
Foi até à sala de manutenção do palácio e escolheu o maior cortador de Relvas que encontrou. Decidido, encaminhou-se para os jardins do palácio e ligou o cortador. 
          Qual não foi o seu espanto quando a Relva se dirigiu a ele, dizendo:
          - Coelho, não quero acreditar que me vais cortar. Não depois de todas as vezes que me usaste para te deitares a aproveitar o sol, depois de todos os piqueniques que fizeste aqui com os nossos amigos, depois de tudo que passamos...
          O Coelho ficou comovido com as recordações que tinha da Relva, mas estava preocupado com o desaparecimento do seu palácio. Depois de algum tempo a pensar, enquanto olhava para a Relva e para o palácio (o que ainda conseguia vislumbrar dele), o Coelho decidiu cortar a Relva e disse:
          - Relva, somos muito amigos, mas entre o meu palácio e tu, tenho de optar pelo palácio.
          E assim foi. Cortou todas as Relvas e substituiu-as por um piso sintético.
         O Coelho continuou no palácio, mas sempre que olhava para os jardins, lembrava-se das Relvas que lá estiveram e derramava uma lágrima.   

terça-feira, 8 de maio de 2012

Locais

A chuva canta,
à espera que a guitarra, pousada numa mesa,
a acompanhe.

Aqui, os homens atropelam-se na 
busca
do minuto perdido.

Fugir. 
Partir. 

Embarcar sem conhecer o
destino.
Uma ilha? Um continente?
Distante ou apenas diferente,
capaz de sacudir, 
esmurrar,
esventrar.

Ali, 
Sal, 
Cor,
Vislumbre dourado da Vida.


quinta-feira, 5 de abril de 2012

Pegar na caneta, olhar para o infinito da página em branco e escrever.

Contar a história que o teu cérebro idealizou.

Tudo faz sentido até ao momento em que a tinta escorre até à folha. A partir daí, tornas-te apenas um meio de transmissão.

É ela quem ordena a sucessão dos acontecimentos, as reviravoltas, o desenlace. A história escreve-se a si própria, usando-te sem piedade. Não te deixa dormir nem descansar. Chama por ti quando quer e tu obedeces, acreditando que és tu quem controla as operações. E julgas pensar na sucessão dos acontecimentos, nas reviravoltas, no desenlace.

Tudo está já definido.

Só tens de obedecer, soldadinho.

E, quando pensares que concluíste a história, ela mostrar-te-á como ainda está longe o final. Apenas escreveste um capítulo. E novos surgirão, porque há sempre personagens novas e recuperadas, novas paragens com novas paisagens, novas aventuras que escondem desventuras.

Resta-te seguir escrevendo.
  

segunda-feira, 26 de março de 2012

1989

    "Twenty", o documentário sobre Pearl Jam, teve a fantástica capacidade de fazer pensar no papel desempenhado pela música durante a minha vida.
     Curiosamente, vinte anos após o espectacular Verão do Bryan Adams, foram-me apresentados os senhores Hetfield, Young, Harris, Dickinson, Hammett, para citar apenas alguns. Para um miúdo cujo primeiro contacto com o rock chegara em formato vinil (vinis dos Beatles perdidos entretanto), este novo som era um grito de raiva contra um mundo que ainda não parecia tão cru e isento de lógica. Mas gostei.
    Era a época de Milli Vanilli, Roxette, Onda Choc e Ministars. Causava admiração um rapazito com uma t-shirt de "Blow up tour Video" rodeado de outros que falavam dos jogos de futebol e de como as colegas eram chatas.
    Tudo mudaria alguns anos mais tarde. O grunge tratou disso. Todos conheciam Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden. Apareceram os Green Day e os Offspring, numa tentativa de reavivar o punk do final dos anos 70. Já era "fixe" considerar o mundo como podre e a existência como algo sofrível. Odiar o poder instituído era regra. Sentia-me, finalmente, como "mais um". Noutros campos, "Killing In The Name" tornava-se um hino político, Kurt era a face de uma geração. Mesmo depois de 1994.
     Eu vivia no "Black Album", passeava pelo "Master" ou pelo "Justice". Claro, não esquecia o "Number of the Beast" nem "Thunderstruck".
     Mais ou menos nesta altura, a rebeldia da adolescência embrenhou-me no manto da escuridão do metal. Deicide, Cradle of Filth, Dimmu Borgir, Cannibal Corpse. Por um lado, a velocidade de execução combinava com uma necessidade de purgar rapidamente os excessos de adrenalina. Por outro, a melódica misantropia encontrava em mim um atento receptor. Foi uma fase curta, mas intensa.
    Poucos anos mais tarde, tornou-se importante para mim perceber como tudo tinha surgido. E assim revelaram-se os clássicos. Hendrix, Zeppelin, Doors, Pistols, Stones, Sabbath. Neles residia a essência do Rock e do Punk. Naqueles álbuns estava tudo o que queria ouvir. Aliados aos eternos Metallica, Maiden e aos discípulos Pearl Jam ou Nirvana, estava criada a base da banda sonora que me acompanharia até hoje.
    "Twenty" fez-me recordar tudo isto. A história de um grupo de tipos que se junta pelo amor à música reavivou o valor que sempre dei à Música. Porque Ela sempre me acompanhou, me compreendeu, me explicou o mundo. Talvez não seja a minha "only friend until the end", mas é uma das mais importantes e presentes. Neste preciso momento, os dedos que viajam no teclado obedecem o ritmo da "Kashmir". Só por isso...


quinta-feira, 22 de março de 2012

Pressa.
Vontade de chegar ao
destino.
Necessidade premente de o alcançar.

A areia não escorre mais rápido
nesta ampulheta imaginária que
criei,
apesar de o ordenar constantemente.

Horas inertes,
ponteiros vagarosos,
o dia é o mesmo,
só a data muda...
... incessantemente...

O espelho reflecte a (minha) evolução dos dias.

E a areia escorre pausadamente...




quinta-feira, 15 de março de 2012

Viagem

     As janelas tornaram-se, há muito, símbolo do vislumbrar de um mundo distante. Instrumento de alienação pessoal, romantizada pela literatura e, mais tarde, pelo cinema. A imagem do personagem que está defronte de uma janela (ou varanda, alpendre...) a recordar episódios românticos, desgraças, desígnios de um funesto Fado enquanto fuma é recorrente. Actualmente, o cigarro tornou-se persona non grata deste imaginário, numa tentativa de incutir uma visão politicamente correcta e saudável. Em muitos casos, foi substituído pelo saudável whiskey ou pelo elegante copo cristalino de vinho tinto.

     Acompanhada como for mais interessante, a reflexão à janela (ou varanda, alpendre...) é ainda muito utilizada nos nossos dias. Dei por mim a pertencer a este grupo no outro dia.

     Com o cigarro na mão (desculpem-me os politicamente correctos), sentado à frente da janela, fixava o oceano, ou melhor, a bruma que o encobria e iniciei a minha viagem interior. Uma viagem às recordações, aos amigos, aos que considerei erradamente amigos, à família. Não por esta ordem, sinceramente. Absorto, nem dei conta que a chuva começava a deformar a visão.

     Na viagem, também os rostos se tornavam disformes. Imagens reminiscentes de "O Grito", mas com caras conhecidas. Acontecimentos passados sucediam-se numa fracção de segundo. Um sonho acordado, no melhor estilo surrealista. Memórias cruzadas, entrelaçadas, intrincadas.

     O cigarro lançava os últimos suspiros, tentando prolongar a sua curta existência. Eu viajava, numa realidade para lá da realidade, num mundo que foi meu (e era ainda), mesmo não o reconhecendo completamente.  

     A chuva, intensa e dominadora, trouxe-me de volta. Bateu no vidro tão forte que despertei do transe. Dei o merecido descanso ao cigarro que, entretanto, desistira do seu intento. Levantei-me e olhei, uma vez mais a bruma. É perigoso fixá-la, suga-nos para o seu mundo desfocado e deixa-nos à deriva, sem rede.

     Virei costas à janela e fui viver.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O pássaro na esplanada

Tímido e gracioso,
decidiu ir para a beira-mar.

Quando chegou, admirando o mar e as primas afastadas que voavam em círculos,
o sol bem alto a anunciar o improvável Inverno da data,
descobriu o sítio ideal para
refletir:
uma esplanada com alguns humanos.

Estes, absortos em leituras, conversas triviais ou apenas
hipnotizados pela dança marítima,
não o viram.
Não repararam como ele os analisava,
perscrutava
e imaginava o que pensavam.
Acima de tudo, não viram como ele celebrava a
vida, no seu voo curto e intermitente.

Ninguém o viu.

Excepto eu.