É interessante parar para pensar
no pseudo-fenómeno que começou a assolar os grupos televisivos americanos na
última década: a adoção de séries britânicas.
No campo do humor, recriaram a
épica saga de Ricky Gervais, The Office. A mesma comédia documental, um
“mockumentary” adaptado ao “american way of life”. Em Portugal, podemos ver
este The Office US num canal do grupo Fox, mas, felizmente, a SIC Radical
transmitiu o original britânico há algum tempo, permitindo assim saber que a
personagem de Steve Carell não era mais do que o alter-ego americano de
Gervais. Para os canais generalistas esta não deveria ser uma série que
interessasse (preferem, talvez, o humor escatológico de Little Britain).
Mas o exemplo mais gritante da
cópia americana e de como os portugueses consomem muito mais facilmente
entretenimento “made in USA” é Shameless.
A série original tem como cenário
Chatsworth Estate, em Manchester, e apresenta Frank Gallagher, um alcoólico
viciado em tudo que ofereça um escape da realidade que vive de subsídios e
pensões do estado (nem todas legais). Frank vive com os seus filhos
intermitentemente, sendo o modelo do pior pai possível. Para eles, o pai é
apenas fonte de preocupações e de problemas. Juntamos a esta família
disfuncional uma mãe que fugiu com uma (sim, uma) camionista, vizinhos que se
dedicam à prostituição e, claro, uma família de rufias liderados por uma
“scouse” que vai assumindo protagonismo com o decorrer das temporadas. É para
este universo caótico e profundamente real que somos sugados quando assistimos
a Shameless. A ironia e a sátira social são tão densas que é impossível não atentar
nos discursos socio-filosófico-alcoolizados de Frank Gallagher. Os párias de
Manchester vivem assim o seu dia-a-dia. Sem saber como será o dia seguinte,
utilizando ardis para ganhar dinheiro, simulando mortes para afastar credores
ou mantendo os mortos “vivos” para receber subsídios.
Na versão americana,
transportaram Chatsworth para os arredores de Chicago e mantiveram os nomes das
personagens, bem como as suas características (exceção: o bebé negro). A
“storyline” não muda muito relativamente à original, com as devidas adaptações
linguísticas.
Há, na minha opinião, uma cópia
demasiadamente assumida que leva qualquer pessoa que viu a série original a não
atribuir grande valor a este Shameless US. Para os outros, é “muito boa”,
“representa uma sociedade decadente americana”, “é um retrato dos anti-heróis
modernos”. E não estão errados. Mas ver Shameless US é como ir ao cinema ver
uma adaptação razoável de um bom livro.
Novamente, é necessário agradecer à SIC Radical por ter trazido para Portugal a série original. O que motivará reflexão é imaginar como uma série que tem já dez temporadas em Inglaterra não chamou a atenção de nenhum canal generalista, mas uma versão/cópia americana com duas ou três temporadas foi rapidamente adquirida pela RTP 2.
Texto publicado em http://p3.publico.pt/vicios/ecra/5907/falta-de-vergonha-da-televisao a 22/12/2012