quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A coerência é uma arma


Escrever sobre política agasta-me. O presente é, no entanto, demasiado denso para conseguir evitá-lo.
Todos cantam a “Grândola, Vila Morena”. Um “novo” hino de um país em convulsão.
A liberdade de expressão é um dos direitos fundamentais de uma democracia e é salutar ver os cidadãos a usufruir desse direito, cantando. Já os tínhamos visto a falar, a gritar, a arremessar pedras da calçada e a vandalizar. Numa primeira análise, prefiro que cantem. E que cantem afinados. Mas existe o outro lado da questão. Segundo o ponto 2 do Artigo 37.º da Lei Constitucional nº 1/92, “O exercício destes direitos (de liberdade de expressão) não pode ser impedido ou limitado por qualquer tipo ou forma de censura. ”. Parece-me óbvio que estamos a pisar a linha que separa a democracia da anarquia.
Vivemos num país democrático, por enquanto. Irrita ouvir falar de pensões milionárias, de cortes orçamentais, de erros dos governos, de penalties roubados, irrita ouvir conversas desmioladas nos transportes públicos, opiniões sobre o tempo ou sobre aquele fungo que nunca mais desaparece. Tudo isso irrita. Mas em 1974 conquistou-se o direito de falar sobre o que se quer. E, desde então, andamos a aprender a digerir as opiniões contrárias às nossas. É claro que sempre existirão os “doentes” com quem não se consegue conversar. Mas, infelizmente, mesmo esses têm direito a pronunciar o seu discurso gravado e as suas opiniões (leia-se opiniões dos outros). E isso é democracia. Todos sabemos e aceitamos.
O que realmente me leva a questionar a atual caminhada para o abismo anárquico é pensar nos direitos pessoais. Quero com isto dizer: Se todos temos o direito de dizer o que queremos, quem é que tem o direito de me interromper quando falo? Há alguma entidade omnipotente que me possa mandar calar? Se estou farto de ouvir a senhora que está sentada ao meu lado no autocarro, interrompo-a e mando-a parar de falar do que fazem os seus oito gatos? Ou se continuo a ouvir que o meu clube ganhou com um golo irregular mando calar o tipo? Que direito tenho eu de silenciar alguém? Já agora, que direito têm vocês de me silenciarem? Estas últimas manifestações musicais são importantes para atestar o verdadeiro estado do país. Portugal está a perder a noção de democracia. E de quem é a culpa? De todos. Os governos dos últimos anos foram maus, más opções de casting. Mas o governo é um conjunto de pessoas eleitas pelo povo para desempenhar um cargo público em representação desse mesmo povo. O problema surge quando o dia do ato eleitoral é um dia solarengo com temperatura amena ou alta. A praia ainda não tem salas de voto. E, depois, muitos desses veraneantes gritam e mandam calar (orgulhosamente) os representantes eleitos pelos outros, os papalvos que perderam alguns minutos a fazer uma cruz e colocar o voto numa urna. E, seguindo a mesma linha orgulhosa, bradam com a mão no peito inchado de ar que não votaram!
Cantem a “Grândola, Vila Morena”, mas não usem a liberdade de expressão como desculpa para cortar essa mesma liberdade aos outros. Eles podem até ser ignorantes, mas são indivíduos que vivem numa democracia. Não podemos ser paladinos da democracia em part-time.




segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Tabu, apenas e só


Para verdadeiramente apreciar um filme como “Tabu”, de Miguel Gomes, é imperativo fazer uma limpeza de memória. Esquecer os prémios, as menções, as críticas, as entrevistas e até o (excelente) percurso enquanto realizador. Eliminar todas as expectativas que esse background automaticamente geraria. Cumprindo estes pré-requisitos, estamos preparados para conhecer um mundo paradoxalmente longínquo e estranhamente próximo.
Um mundo a preto e branco, dividido em dois momentos.
O primeiro, “Paraíso Perdido”.
Na Lisboa atual, um apartamento que é ainda uma reminiscência de um passado colonial onde moram D. Aurora e a sua criada negra, Santa. Todo este momento é regido pelo sangue que ficou entranhado nas mãos da senil D. Aurora (representada pela eterna D. Maria dos Prazeres, Laura Soveral) e também pelo sofrimento e tensão que parece nunca abandonar a católica, ativista e sensível D. Pilar (Teresa Madruga), sua vizinha.
O pedido moribundo de D. Aurora encadeia o segundo momento, “Paraíso”.
Narrado pelo GianLuca Ventura (Henrique Espírito Santo), é-nos apresentada, utilizando como plano de fundo o retrato da sociedade portuguesa nas colónias, a história do amor proibido que o uniu a Aurora, assim como do acontecimento que entranharia para sempre o sangue nas mãos da protagonista.
                 No “Paraíso Perdido”, Miguel Gomes teve em atenção pormenores que remetem para um cinema anterior ao seu, como a cena do sonho surrealista que D. Aurora conta no casino ou a imagem do carro funerário que atravessa o ecrã ao ritmo da procissão fúnebre; descreveu a resistência à mudança, patente na cena do quadro que está na parede, mas é “demasiado esquisito”, sendo substituído por outro mais “normal”. Contudo, é no “Paraíso” que explana toda a sua arte enquanto realizador. Abandonando a tensão nos rostos das personagens, centra a realização numa série de postais da zona do monte Tabu e num surdo diálogo que é interrompido pelo som ambiente (as músicas da Mario’s Band, a comida atirada para alimentar o crocodilo), permitindo ao espectador centrar-se nos lábios da jovem Aurora (Ana Moreira) e do jovem GianLuca (Carlotto Cota), imaginar o aparecimento e desenvolvimento do seu amor enquanto ouve a narração pausada e grave.
Dois momentos de realização captam (ainda mais) a atenção: O pormenor da chuva que escorre exemplarmente pela objetiva e o sublime uso da iluminação no momento em que os dois amantes se reencontram após alguns meses de separação. É imperativo tentar descrever este último. Ela na luz, no branco; ele, na escuridão, no preto. Ela avança para a escuridão. Simples e poético. Exatamente como o cinema deveria ser.
Fazendo também eu uma analepse, o monólogo inicial não poderia deixar de ser mencionado. A força poética do texto é tal que é impossível não seguir atentamente o “explorador intrépido” que, assombrado pela defunta esposa, se oferece ao crocodilo.
Este “Tabu” é um filme intemporalmente perfeito. Miguel Gomes arrisca-se a ganhar, definitivamente, um lugar de destaque na história do cinema português. E, recuperando os dados apagados inicialmente para poder apreciar o filme, é justo dizer que todos os prémios, menções e críticas foram merecidos. Mas asseguro que não foram os últimos. Nem do filme, nem do realizador.

domingo, 23 de dezembro de 2012

A falta de vergonha da televisão


É interessante parar para pensar no pseudo-fenómeno que começou a assolar os grupos televisivos americanos na última década: a adoção de séries britânicas.
                No campo do humor, recriaram a épica saga de Ricky Gervais, The Office. A mesma comédia documental, um “mockumentary” adaptado ao “american way of life”. Em Portugal, podemos ver este The Office US num canal do grupo Fox, mas, felizmente, a SIC Radical transmitiu o original britânico há algum tempo, permitindo assim saber que a personagem de Steve Carell não era mais do que o alter-ego americano de Gervais. Para os canais generalistas esta não deveria ser uma série que interessasse (preferem, talvez, o humor escatológico de Little Britain).
Mas o exemplo mais gritante da cópia americana e de como os portugueses consomem muito mais facilmente entretenimento “made in USA” é Shameless.
A série original tem como cenário Chatsworth Estate, em Manchester, e apresenta Frank Gallagher, um alcoólico viciado em tudo que ofereça um escape da realidade que vive de subsídios e pensões do estado (nem todas legais). Frank vive com os seus filhos intermitentemente, sendo o modelo do pior pai possível. Para eles, o pai é apenas fonte de preocupações e de problemas. Juntamos a esta família disfuncional uma mãe que fugiu com uma (sim, uma) camionista, vizinhos que se dedicam à prostituição e, claro, uma família de rufias liderados por uma “scouse” que vai assumindo protagonismo com o decorrer das temporadas. É para este universo caótico e profundamente real que somos sugados quando assistimos a Shameless. A ironia e a sátira social são tão densas que é impossível não atentar nos discursos socio-filosófico-alcoolizados de Frank Gallagher. Os párias de Manchester vivem assim o seu dia-a-dia. Sem saber como será o dia seguinte, utilizando ardis para ganhar dinheiro, simulando mortes para afastar credores ou mantendo os mortos “vivos” para receber subsídios.
Na versão americana, transportaram Chatsworth para os arredores de Chicago e mantiveram os nomes das personagens, bem como as suas características (exceção: o bebé negro). A “storyline” não muda muito relativamente à original, com as devidas adaptações linguísticas.
Há, na minha opinião, uma cópia demasiadamente assumida que leva qualquer pessoa que viu a série original a não atribuir grande valor a este Shameless US. Para os outros, é “muito boa”, “representa uma sociedade decadente americana”, “é um retrato dos anti-heróis modernos”. E não estão errados. Mas ver Shameless US é como ir ao cinema ver uma adaptação razoável de um bom livro.  

Novamente, é necessário agradecer à SIC Radical por ter trazido para Portugal a série original. O que motivará reflexão é imaginar como uma série que tem já dez temporadas em Inglaterra não chamou a atenção de nenhum canal generalista, mas uma versão/cópia americana com duas ou três temporadas foi rapidamente adquirida pela RTP 2.  

Texto publicado em http://p3.publico.pt/vicios/ecra/5907/falta-de-vergonha-da-televisao a 22/12/2012

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A muda abertura de um Camino breve



O concerto dos The Black Keys no Pavilhão Atlântico foi bom. Competente. Profissional. E breve. Demasiado breve para uma banda com mais de dez anos. A produção foi quase imaculada. O live feed não reproduziu simplesmente o que se passava em palco. Reflexos, cores e espelhos serviram para levar o público a estar atento ao que passava nas telas. Também o trabalho do VJ foi alvo de atenção. Montagens, baterias e imagens do El Camino na música mais aguardada da noite, todas bem conseguidas. Notaram-se sem se sobreporem aos heróis da noite.
Dan e Patrick foram enérgicos como expectável, embora Auerbach não merecesse a traição do microfone na abertura explosiva de Howlin’ for you. Nem o público.
O blues e o rock estiveram bem representados no poder da cadência e na gritaria prantosa da guitarra. Os sons mais comerciais de El Camino e Brothers animaram uma sala que provou estar lá para ouvir isso mesmo. El Camino e pouco mais. A roupagem em Sinister Kid foi quase ignorada, Thickfreakness levou alguns a mexer, fruto das ordens do riff e só I Got Mine, a última música apresentada, teve a devida apoteose (musical e visual) por parte da massa maioritariamente teen que encheu a plateia do Atlântico.
Ficam na memória, além das acima referidas, Little Black Submarines, Next Girl, Gold on the Ceiling, Everlasting Light (graças à bola de cristal e ao ambiente de bar que criou) e, claro, Lonely Boy. Uma das grandes ausências foi Have Love Will Travel, engolida (talvez) pela necessidade de respeitar a duração do concerto. Noventa minutos são escassos para uma banda que se estreava nos nossos palcos. Apesar da promessa de voltar, o público português merecia mais esta noite, não numa próxima.
Apesar das inúmeras tentativas, o duo americano não incorpora nem transmite uma imagem de entertainer. Não prima pela criação de empatia com o público. Objetos lusos lançados para o palco foram ignorados, a saída de palco não correspondeu ao discurso que a antecedeu. Mas a função dos The Black Keys foi inteiramente cumprida: trazer a eletricidade do Rock n’ Roll mesclado com a melancolia do Blues ao público português. 
Quanto aos The Macabees, tentaram esforçadamente passar uma sonoridade que está moribunda. E à qual nada acrescentaram.

Texto publicado em http://p3.publico.pt/cultura/mp3/5606/black-keys-competentes-e-profissionais a 28/11/2012


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Ruído Português



Quando te sentas e tentas interiorizar o mundo, tudo pode acontecer.

Ouves o mais profundo silêncio. Uma explosão. Queixumes. Risos.

Eu ouço ruído. Conversas indistintas e fúteis abafadas pelas máquinas. Tosse constante. Gritos mascarados de gargalhadas. Choro dissimulado em catarro. Um pobre doente, o mundo. O meu mundo.

As pessoas do meu mundo. Umas, cabisbaixas, ensimesmadas na busca de uma solução utópica. Outras, revolucionárias, ondas que tentam empurrar o rochedo para fora do mar. Os vendavais diários derrubam a esperança e as respostas surgem com a regularidade de um eclipse. Um eclipse. Total e duradouro.

Aguardar. Aguentar. Agoniar. Ansiar.
 



  

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A Solidão que enche o Ser


O Artista está sempre
sozinho.
É a Solidão que o caracteriza.
Angústia do silêncio ouvida em todos os tormentos.
Ao olhar uma parede,
é a Sua alva cor que vê.
Ao expelir o fumo nicotinal,
são as Suas palavras que lê.
Sem a Solidão, o Artista é apenas…
… humano.
A sofreguidão que faz tremer a caneta e a
dor latente são poéticas.
Nada é banal.
Nada é comum.
Só assim ele consegue ser.
Sentir não é mais do que o
suave
beijo
da Solidão.
E viver é apenas o Seu abraço.   

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O Coelho e o cortador de Relvas

           Era uma vez, num país longínquo e esquecido, um Coelho que vivia num belo palácio, rodeado de jardins muito belos. Todos os dias, o Coelho falava com um grupo de animais, cujas responsabilidades eram resolver os problemas que surgiam, não só na casa, mas também no país. É que este Coelho governava aquela terra longínqua. De todos os animais, ele conversava bastante com um Grilo e uma Coruja. 
          Um dia, o Coelho acordou e reparou que a Relva dos seus jardins estava cada vez maior, ameaçando até cobrir o seu palácio. Muito preocupado, chamou os seus conselheiros mais próximos. O Grilo, com o seu discurso articulado e calmo, agradeceu a questão e salientou que o melhor seria não tomar atitudes precipitadas, pois a sombra gerada pela Relva podia não ser assim tão má; já a Coruja começou a abanar as asas e a dizer que estava contente por o Coelho a ter chamado para ajudar a resolver tal questão. Na verdade, a Coruja pensava ter perdido todo o seu poder para o Grilo e estava deliciada por poder dizer o que pensava.
O Coelho ouviu ambos e, perante a ineficácia dos seus argumentos, decidiu tratar pessoalmente do assunto.
Foi até à sala de manutenção do palácio e escolheu o maior cortador de Relvas que encontrou. Decidido, encaminhou-se para os jardins do palácio e ligou o cortador. 
          Qual não foi o seu espanto quando a Relva se dirigiu a ele, dizendo:
          - Coelho, não quero acreditar que me vais cortar. Não depois de todas as vezes que me usaste para te deitares a aproveitar o sol, depois de todos os piqueniques que fizeste aqui com os nossos amigos, depois de tudo que passamos...
          O Coelho ficou comovido com as recordações que tinha da Relva, mas estava preocupado com o desaparecimento do seu palácio. Depois de algum tempo a pensar, enquanto olhava para a Relva e para o palácio (o que ainda conseguia vislumbrar dele), o Coelho decidiu cortar a Relva e disse:
          - Relva, somos muito amigos, mas entre o meu palácio e tu, tenho de optar pelo palácio.
          E assim foi. Cortou todas as Relvas e substituiu-as por um piso sintético.
         O Coelho continuou no palácio, mas sempre que olhava para os jardins, lembrava-se das Relvas que lá estiveram e derramava uma lágrima.