segunda-feira, 26 de março de 2012

1989

    "Twenty", o documentário sobre Pearl Jam, teve a fantástica capacidade de fazer pensar no papel desempenhado pela música durante a minha vida.
     Curiosamente, vinte anos após o espectacular Verão do Bryan Adams, foram-me apresentados os senhores Hetfield, Young, Harris, Dickinson, Hammett, para citar apenas alguns. Para um miúdo cujo primeiro contacto com o rock chegara em formato vinil (vinis dos Beatles perdidos entretanto), este novo som era um grito de raiva contra um mundo que ainda não parecia tão cru e isento de lógica. Mas gostei.
    Era a época de Milli Vanilli, Roxette, Onda Choc e Ministars. Causava admiração um rapazito com uma t-shirt de "Blow up tour Video" rodeado de outros que falavam dos jogos de futebol e de como as colegas eram chatas.
    Tudo mudaria alguns anos mais tarde. O grunge tratou disso. Todos conheciam Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden. Apareceram os Green Day e os Offspring, numa tentativa de reavivar o punk do final dos anos 70. Já era "fixe" considerar o mundo como podre e a existência como algo sofrível. Odiar o poder instituído era regra. Sentia-me, finalmente, como "mais um". Noutros campos, "Killing In The Name" tornava-se um hino político, Kurt era a face de uma geração. Mesmo depois de 1994.
     Eu vivia no "Black Album", passeava pelo "Master" ou pelo "Justice". Claro, não esquecia o "Number of the Beast" nem "Thunderstruck".
     Mais ou menos nesta altura, a rebeldia da adolescência embrenhou-me no manto da escuridão do metal. Deicide, Cradle of Filth, Dimmu Borgir, Cannibal Corpse. Por um lado, a velocidade de execução combinava com uma necessidade de purgar rapidamente os excessos de adrenalina. Por outro, a melódica misantropia encontrava em mim um atento receptor. Foi uma fase curta, mas intensa.
    Poucos anos mais tarde, tornou-se importante para mim perceber como tudo tinha surgido. E assim revelaram-se os clássicos. Hendrix, Zeppelin, Doors, Pistols, Stones, Sabbath. Neles residia a essência do Rock e do Punk. Naqueles álbuns estava tudo o que queria ouvir. Aliados aos eternos Metallica, Maiden e aos discípulos Pearl Jam ou Nirvana, estava criada a base da banda sonora que me acompanharia até hoje.
    "Twenty" fez-me recordar tudo isto. A história de um grupo de tipos que se junta pelo amor à música reavivou o valor que sempre dei à Música. Porque Ela sempre me acompanhou, me compreendeu, me explicou o mundo. Talvez não seja a minha "only friend until the end", mas é uma das mais importantes e presentes. Neste preciso momento, os dedos que viajam no teclado obedecem o ritmo da "Kashmir". Só por isso...


quinta-feira, 22 de março de 2012

Pressa.
Vontade de chegar ao
destino.
Necessidade premente de o alcançar.

A areia não escorre mais rápido
nesta ampulheta imaginária que
criei,
apesar de o ordenar constantemente.

Horas inertes,
ponteiros vagarosos,
o dia é o mesmo,
só a data muda...
... incessantemente...

O espelho reflecte a (minha) evolução dos dias.

E a areia escorre pausadamente...




quinta-feira, 15 de março de 2012

Viagem

     As janelas tornaram-se, há muito, símbolo do vislumbrar de um mundo distante. Instrumento de alienação pessoal, romantizada pela literatura e, mais tarde, pelo cinema. A imagem do personagem que está defronte de uma janela (ou varanda, alpendre...) a recordar episódios românticos, desgraças, desígnios de um funesto Fado enquanto fuma é recorrente. Actualmente, o cigarro tornou-se persona non grata deste imaginário, numa tentativa de incutir uma visão politicamente correcta e saudável. Em muitos casos, foi substituído pelo saudável whiskey ou pelo elegante copo cristalino de vinho tinto.

     Acompanhada como for mais interessante, a reflexão à janela (ou varanda, alpendre...) é ainda muito utilizada nos nossos dias. Dei por mim a pertencer a este grupo no outro dia.

     Com o cigarro na mão (desculpem-me os politicamente correctos), sentado à frente da janela, fixava o oceano, ou melhor, a bruma que o encobria e iniciei a minha viagem interior. Uma viagem às recordações, aos amigos, aos que considerei erradamente amigos, à família. Não por esta ordem, sinceramente. Absorto, nem dei conta que a chuva começava a deformar a visão.

     Na viagem, também os rostos se tornavam disformes. Imagens reminiscentes de "O Grito", mas com caras conhecidas. Acontecimentos passados sucediam-se numa fracção de segundo. Um sonho acordado, no melhor estilo surrealista. Memórias cruzadas, entrelaçadas, intrincadas.

     O cigarro lançava os últimos suspiros, tentando prolongar a sua curta existência. Eu viajava, numa realidade para lá da realidade, num mundo que foi meu (e era ainda), mesmo não o reconhecendo completamente.  

     A chuva, intensa e dominadora, trouxe-me de volta. Bateu no vidro tão forte que despertei do transe. Dei o merecido descanso ao cigarro que, entretanto, desistira do seu intento. Levantei-me e olhei, uma vez mais a bruma. É perigoso fixá-la, suga-nos para o seu mundo desfocado e deixa-nos à deriva, sem rede.

     Virei costas à janela e fui viver.