quinta-feira, 15 de março de 2012

Viagem

     As janelas tornaram-se, há muito, símbolo do vislumbrar de um mundo distante. Instrumento de alienação pessoal, romantizada pela literatura e, mais tarde, pelo cinema. A imagem do personagem que está defronte de uma janela (ou varanda, alpendre...) a recordar episódios românticos, desgraças, desígnios de um funesto Fado enquanto fuma é recorrente. Actualmente, o cigarro tornou-se persona non grata deste imaginário, numa tentativa de incutir uma visão politicamente correcta e saudável. Em muitos casos, foi substituído pelo saudável whiskey ou pelo elegante copo cristalino de vinho tinto.

     Acompanhada como for mais interessante, a reflexão à janela (ou varanda, alpendre...) é ainda muito utilizada nos nossos dias. Dei por mim a pertencer a este grupo no outro dia.

     Com o cigarro na mão (desculpem-me os politicamente correctos), sentado à frente da janela, fixava o oceano, ou melhor, a bruma que o encobria e iniciei a minha viagem interior. Uma viagem às recordações, aos amigos, aos que considerei erradamente amigos, à família. Não por esta ordem, sinceramente. Absorto, nem dei conta que a chuva começava a deformar a visão.

     Na viagem, também os rostos se tornavam disformes. Imagens reminiscentes de "O Grito", mas com caras conhecidas. Acontecimentos passados sucediam-se numa fracção de segundo. Um sonho acordado, no melhor estilo surrealista. Memórias cruzadas, entrelaçadas, intrincadas.

     O cigarro lançava os últimos suspiros, tentando prolongar a sua curta existência. Eu viajava, numa realidade para lá da realidade, num mundo que foi meu (e era ainda), mesmo não o reconhecendo completamente.  

     A chuva, intensa e dominadora, trouxe-me de volta. Bateu no vidro tão forte que despertei do transe. Dei o merecido descanso ao cigarro que, entretanto, desistira do seu intento. Levantei-me e olhei, uma vez mais a bruma. É perigoso fixá-la, suga-nos para o seu mundo desfocado e deixa-nos à deriva, sem rede.

     Virei costas à janela e fui viver.

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