Numa improvável noite quente de Outubro, o sentimento é de submissão. Completamente hipntotizado por um som tão desconhecido e tão familiar que te transporta para um universo místico.
É como defino o concerto de Tinariwen no Teatro Municipal de Vila do Conde.
Sem expectativas, sem preconceitos, à espera da surpresa e da desilusão. Foi assim que entrei na Sala 1. Quando as luzes lentamente deram lugar aos resistentes Touareg, toda a realidade da cidade "espraiada entre pinhais, rio e mar" se esvaiu. Todos fomos transportados para o mundo dos Tinariwen, incondicionalmente. E por lá ficamos durante duas horas, deliciados com os repetitivos "ça va?", "ok?", "obrigado" e "merci".
A guitarra serpenteou pela efusiva linha do baixo, comandados pela poderosa percursão. A voz, essa, transformava as palavras imperceptíveis em dialecto universal, com a mestria de um encantador de serpentes.
Desde o seu início que se salientou a utilização das guitarras eléctricas, mas o segredo reside no baixo. E não porque utilizaram um baixo oferecido pelos Red Hot Chili Peppers na semana anterior ao concerto. É óbvio que as guitarras (eléctricas ou acústicas) dão uma sonoridade inconfundível, que parece beber dos blues e até do folk algumas gotas de genialidade. Mas não existe confusão. É música do deserto. Refiro o baixo, porque as linhas são tão fortes e ritmadas que são o tronco por onde a serpente sobe lentamente.
Sem elas, muita da profundidade do som desapareceria. Continuaria a ser bom, mas seria uma obra incompleta, uma "Sagrada Família".
O som dos Tinariwen é o ideal para acompanhar uma viagem ou para ouvir em casa, depois de um dia mau.
Faltou apenas esta (acho eu)..
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