Por demasiadas vezes ouvimos a expressão "É um menino da mamã!" e, instintivamente, lançamos um sorriso trocista. Está impregnado no nosso código genético que devemos troçar dos "meninos da mamã". Sem saber ao certo porquê. Sem questionar a origem.
O que é um "menino da mamã"?
Alguém que não sabe cozinhar? Que evita lavar a loiça sempre que possível? Que nem sempre se preocupa em fazer a cama, porque sabe que num futuro muito próximo ela será novamente utilizada? Que não sabe o local dos produtos de limpeza ou o compartimento correcto do amaciador e do detergente na máquina? Que desconhece o melhor método de estender a roupa? A lista seria enorme, se quiséssemos fazer uma pesquisa exaustiva.
Nada melhor do que sair de casa dos pais para deixar de ser "menino da mamã". Ninguém ousa nomear uma pessoa que vive sozinha ou com um(a) companheiro(a) de "menino da mamã". Seria contraditório.
Porquê então esta reflexão tão suis generis?
Porque descobri a minha total ignorância relativamente ao modo como devo estender a roupa. Existe todo um ritual associado a esta simples tarefa (As senhoras que o praticam desde a infância podem parar de sorrir agora. Obrigado.).
Começando pelo acto de tirar a roupa da máquina. A ordem nem sempre é aleatória. Tem de haver já uma visualização mental do espaço a ocupar e das peças a utilizar nesse espaço, tal como o jogador de xadrez que antecipa até quatro jogadas do adversário.
Depois, é necessário sacudir a roupa. Novamente a antecipar a dificuldade que trará ao passar a roupa a ferro. Quanto menos emaranhada secar, melhor viajará o ferro de engomar pela peça.
Sacudida sem contemplações, vem a fase de colocar a roupa no estendal. "Nada mais fácil!", pensei eu, no pico da minha ignorância. É preciso toda a atenção neste passo, pois não se podem pôr molas como nos apetece e muito menos onde nos apetece! Sacrilégio!! A roupa tem os seus locais específicos para as molas: debaixo da área do sovaco, onde as costuras se juntam. Aí está! Isto é fantástico para camisas e camisolas. E para boxers? Ao que consegui indagar, não existe uma regra. Mas na roupa interior não há grande problema, porque é interior.
Se desrespeitar esta regra, é porque não antecipou que precisará de passar a ferro a roupa e os vincos criados pelas molas deixá-lo-ão com vontade de se auto-flagelar. Ou não.
A arte milenar de estender a roupa obriga ao cumprimento de todas as etapas religiosamente. Ou não.
Pode sempre optar por uma camisa emaranhada (há quem as venda assim), da mesma forma que pode optar por raramente fazer a cama, comer fora, mandar a roupa para a lavandaria e utilizar pratos e talheres descartáveis. No mundo actual existem pessoas e serviços que nos simplificam a vida. Para quê complicar?
Para não nos chamarem "menino da mamã"?
Cresçam!
Nota: Este artigo foi escrito desrespeitando o novo Acordo Ortográfico.
Fiquei deliciada ao apreciar a maneira como descreveste o maravilhoso processo de estender a roupa.
ResponderEliminarE sim, concordo que hoje em dia existem mil e um serviços que nos podem 'dispensar' das tarefas domésticas... Mas será a mesma coisa?
Comer com talheres e pratos de plástico?
Andar com roupa vinda da lavandaria sem aquele cheirinho a amaciador tão tipico lá de casa?
Andar com roupa amarrotada?
Comer TODOS os dias fora?
Dormir sem sentir o prazer de uma cama bem feita?
Humm...não me parece! :D
Não sou menina da mamã, sou a menina lá de casa :D